Deparei-me com a história desse homem no
livro Cultura da Agressividade, de Jacob Pinheiro Goldberg (Editora Landy, 2004) e me lembrei dos tempos em que o
filme Patch Adams – O Amor é Contagioso
fez um estrondoso sucesso e como um ídolo assim, de carne e osso, sempre nos acalenta.
Por isso, resolvi contá-la também.
Henryk Goldszmit é um homem cercado de
lendas. E por mais românticas e idealizadoras que elas sejam, concordo com Rafael
F. Scharf (ver Fontes) quando diz que esses enfeites são desnecessários –
apesar de não ter sido possível, pelas referências, identificá-los claramente.
Nascido em 1878 ou 1879, em uma rica família judia da Polônia, Henryk Goldszmit
é um jovem instruído, com pai advogado e avô médico. Desde o início da sua vida
acadêmica mostrava certa inquietude, sendo contra o método da disciplina
escolar e desenvolvendo, entre os colegas de classe, grupos de discussão. Foi o
sonho de se tornar escritor que o levou a adotar o pseudônimo Janusz Korczak, herói de um romance pouco conhecido de Kra Szewski, para participar de um concurso literário. Por insistência do
pai, porém, ingressou na faculdade de Medicina.
Antes de terminar os estudos, perde o pai,
vítima de uma doença mental que se arrastou por anos e consumiu as economias da
família. Seu curso foi concluído com muito esforço: Korczak dava aulas
particulares para ajudar sua mãe e irmã. Formado em pediatria, sua situação melhora um pouco
e o comichão de sua alma inquieta reaparece: aos 34 anos, abandona o posto de
médico do exército e passa a se dedicar, filantropicamente, a um orfanato para
as crianças pobres judias da Varsóvia, mantido exclusivamente com doações.
Um fato curioso sobre seu orfanato era o modo
como lidava com e educava as crianças. Tendo pesquisado e visitado vários orfanatos
da Suíça, Itália, Holanda e Dinamarca, ele se decepcionou com essas
instituições, comparando-as a prisões e resolveu fundar a sua própria. Contrário
ao “adultismo”, forma de tratar as crianças como pequenos adultos, Korczak equilibrava
de maneira admirável o exercício da liberdade e o cumprimento dos deveres de
seus pupilos. Conhecido como “República das Crianças”, seu orfanato tinha
parlamento e tribunal próprios, onde inclusive os mestres, além dos alunos,
poderiam ser arguidos. O jornal também era produzido por todos e dizem que em
30 anos Korczak nunca deixou de contribuir ao menos com um artigo
semanal. Paralelo a este trabalho, concluiu muitas obras sobre o assunto, que
são referência até hoje nos modelos educacionais.
Entre 1919 e 1933 o sol parecia querer
brilhar em seu esplendor na sociedade: com o fim da Primeira Grande Guerra
várias experiências inovadoras no âmbito educacional eram debatidas. As pessoas
acreditavam que uma mudança no ensino era necessária para uma possível
igualdade social. Na Alemanha surge a Escola Internacional, com princípios
semelhantes aos de Korczak. Mas, por problemas com as autoridades alemãs, a
escola é levada para a Áustria e finalmente para a Inglaterra, onde funciona
até hoje com o nome de Summerhill. O antissemitismo crescente, fruto da crise
econômica de 1929, porém, traz o eclipse à Europa.
O cerco aos judeus começava a tomar formas e
muitos migraram para Israel – inclusive Korczak. Impressionado com o
funcionamento dos kibutzim, ele pensa em transferir seu orfanato para este
país. Mas a II Guerra Mundial eclode e impede a realização de seus planos. Após
dois atentados, seu orfanato perde o comitê que o sustentava e a Gestapo o
transfere para um gueto na Varsóvia. Korczak tenta o impossível para conseguir
medicação e alimento para as crianças. Estavam todos expostos à fome, frio e a doenças.
Mesmo assim, vez ou outra mais uma criança era resgatada de uma situação ainda
pior e levada ao orfanato.
Korczak estava ciente do terror que só aumentava. E aqui, especialmente, as histórias sobre esse herói transbordam a realidade.
Uns dizem que no fatídico dia em que suas 200 crianças foram levadas para a
morte, o médico carregou dois pequenos no colo. Outros afirmam que foi
inventada uma excursão para algum lugar feliz. Suspeita-se (o que eu não
duvidaria) que, pelo seu prestígio como educador, poderia ter escapado
desse destino. O que se tem certeza é que
Korczak, junto com 12 funcionários,
caminhou até Treblinka com suas crianças e lá encerrou sua jornada.
Jerusalém - Memorial de Yad Vashem
"Aqueles que amam Korczak e que crêem na força de seu exemplo sentiam que era necessário encontrar um modo mais concreto de imortalizar sua figura e suas idéias. Assim souberam com alegria que uma obra grandiosa seria realizada na Polônia com a aprovação e a sustentação financeira do governo: um Instituto Científico de Proteção e Educação Janusz Korczak. Foi-lhe destinado um espaço deslumbrante de uma centena de hectares lá onde Vístula – o Vístula bem-amado de Korczak – contorna a localidade de Lomianski. O projeto já está pronto. É um empreendimento magnífico que levará seu nome. Não uma estátua de bronze ou de mármore, mas um centro cheio de vida, para onde virão crianças de perto e de longe, onde elas crescerão, se instruirão, se divertirão juntas, próximas à natureza, numa atmosfera de compreensão e boa vontade para com todos. Os educadores e os professores aí se reunirão para aprender observar, para participar das experiências de trabalho com as crianças e os adolescentes, para aproximar-se da realização dos sonhos de Korczak, mesmo que isso seja um passo apenas para um mundo no qual as crianças possam viver felizes."
Sobre a citação, não achei mais referências. Mas fico torcendo para que seja verdade.
Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Janusz_Korczak
http://www.rubemalves.com.br/comoamarumacrianca.htm
http://www.infoescola.com/pedagogia/a-pedagogia-de-janusz-korczak/
http://academiareumatol.com.br/janusz/biografia.html






