5.23.2012

Personalidade - JANUSZ KORCZAK


Deparei-me com a história desse homem no livro Cultura da Agressividade, de Jacob Pinheiro Goldberg (Editora Landy, 2004) e me lembrei dos tempos em  que o filme Patch Adams – O Amor é Contagioso fez um estrondoso sucesso e como um ídolo assim, de carne e osso, sempre nos acalenta. Por isso, resolvi contá-la também.



Henryk Goldszmit é um homem cercado de lendas. E por mais românticas e idealizadoras que elas sejam, concordo com Rafael F. Scharf (ver Fontes) quando diz que esses enfeites são desnecessários – apesar de não ter sido possível, pelas referências, identificá-los claramente. Nascido em 1878 ou 1879, em uma rica família judia da Polônia, Henryk Goldszmit é um jovem instruído, com pai advogado e avô médico. Desde o início da sua vida acadêmica mostrava certa inquietude, sendo contra o método da disciplina escolar e desenvolvendo, entre os colegas de classe, grupos de discussão. Foi o sonho de se tornar escritor que o levou a adotar o pseudônimo Janusz Korczak, herói de um romance pouco conhecido de Kra Szewski, para participar de um concurso literário. Por insistência do pai, porém, ingressou na faculdade de Medicina.

Antes de terminar os estudos, perde o pai, vítima de uma doença mental que se arrastou por anos e consumiu as economias da família. Seu curso foi concluído com muito esforço: Korczak dava aulas particulares para ajudar sua mãe e irmã. Formado em pediatria, sua situação melhora um pouco e o comichão de sua alma inquieta reaparece: aos 34 anos, abandona o posto de médico do exército e passa a se dedicar, filantropicamente, a um orfanato para as crianças pobres judias da Varsóvia, mantido exclusivamente com doações.

Um fato curioso sobre seu orfanato era o modo como lidava com e educava as crianças. Tendo pesquisado e visitado vários orfanatos da Suíça, Itália, Holanda e Dinamarca, ele se decepcionou com essas instituições, comparando-as a prisões e resolveu fundar a sua própria. Contrário ao “adultismo”, forma de tratar as crianças como pequenos adultos, Korczak equilibrava de maneira admirável o exercício da liberdade e o cumprimento dos deveres de seus pupilos. Conhecido como “República das Crianças”, seu orfanato tinha parlamento e tribunal próprios, onde inclusive os mestres, além dos alunos, poderiam ser arguidos. O jornal também era produzido por todos e dizem que em 30 anos Korczak nunca deixou de contribuir ao menos com um artigo semanal. Paralelo a este trabalho, concluiu muitas obras sobre o assunto, que são referência até hoje nos modelos educacionais.

Entre 1919 e 1933 o sol parecia querer brilhar em seu esplendor na sociedade: com o fim da Primeira Grande Guerra várias experiências inovadoras no âmbito educacional eram debatidas. As pessoas acreditavam que uma mudança no ensino era necessária para uma possível igualdade social. Na Alemanha surge a Escola Internacional, com princípios semelhantes aos de Korczak. Mas, por problemas com as autoridades alemãs, a escola é levada para a Áustria e finalmente para a Inglaterra, onde funciona até hoje com o nome de Summerhill. O antissemitismo crescente, fruto da crise econômica de 1929, porém, traz o eclipse à Europa.

O cerco aos judeus começava a tomar formas e muitos migraram para Israel – inclusive Korczak. Impressionado com o funcionamento dos kibutzim, ele pensa em transferir seu orfanato para este país. Mas a II Guerra Mundial eclode e impede a realização de seus planos. Após dois atentados, seu orfanato perde o comitê que o sustentava e a Gestapo o transfere para um gueto na Varsóvia. Korczak tenta o impossível para conseguir medicação e alimento para as crianças. Estavam todos expostos à fome, frio e a doenças. Mesmo assim, vez ou outra mais uma criança era resgatada de uma situação ainda pior e levada ao orfanato.

Korczak estava ciente do terror que só aumentava. E aqui, especialmente, as histórias sobre esse herói transbordam a realidade. Uns dizem que no fatídico dia em que suas 200 crianças foram levadas para a morte, o médico carregou dois pequenos no colo. Outros afirmam que foi inventada uma excursão para algum lugar feliz. Suspeita-se (o que eu não duvidaria) que, pelo seu prestígio como educador, poderia ter escapado desse destino. O que se tem certeza é que  Korczak, junto com 12 funcionários, caminhou até Treblinka com suas crianças e lá encerrou sua jornada.


Jerusalém - Memorial de Yad Vashem


"Aqueles que amam Korczak e que crêem na força de seu exemplo sentiam que era necessário encontrar um modo mais concreto de imortalizar sua figura e suas idéias. Assim souberam com alegria que uma obra grandiosa seria realizada na Polônia com a aprovação e a sustentação financeira do governo: um Instituto Científico de Proteção e Educação Janusz Korczak. Foi-lhe destinado um espaço deslumbrante de uma centena de hectares lá onde Vístula – o Vístula bem-amado de Korczak – contorna a localidade de Lomianski. O projeto já está pronto. É um empreendimento magnífico que levará seu nome. Não uma estátua de bronze ou de mármore, mas um centro cheio de vida, para onde virão crianças de perto e de longe, onde elas crescerão, se instruirão, se divertirão juntas, próximas à natureza, numa atmosfera de compreensão e boa vontade para com todos. Os educadores e os professores aí se reunirão para aprender observar, para participar das experiências de trabalho com as crianças e os adolescentes, para aproximar-se da realização dos sonhos de Korczak, mesmo que isso seja um passo apenas para um mundo no qual as crianças possam viver felizes."

Sobre a citação, não achei mais referências. Mas fico torcendo para que seja verdade.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Janusz_Korczak
http://www.rubemalves.com.br/comoamarumacrianca.htm
http://www.infoescola.com/pedagogia/a-pedagogia-de-janusz-korczak/
http://academiareumatol.com.br/janusz/biografia.html

Solidão? Que nada.

A internet como ferramenta útil (e barata) para se divertir. 




Vez ou outra uma notícia de alguém que marcou encontro pela internet e sumiu – ou ainda foi morto – nos alarma e faz esse tipo de atitude parecer inconsequente. Mas as diversões estilo “one night stand”, namoros e mesmo casamentos não são notícia de TV. Aliás, os últimos são propaganda nos próprios sites de encontro, o que não aumenta muito a credibilidade desses casos. Por experiência própria, afirmo: apesar de algumas roubadas, funciona. Mais que isso: é um verdadeiro catalisador. Mas tem que saber usar. Daí surgiu a ideia de ajudar quem ainda está com um ou dois pés atrás.


NA SELEÇÃO

DESMITIFIQUE A INTERNET. Dois mitos atrapalham muito a rede como facilitadora de relacionamentos. O primeiro é que no mundo virtual você estará a salvo do mundo real. Então é comum que muitas pessoas, ao se decepcionarem na primeira vez, não tentem novamente. Já pensou se tomássemos a mesma atitude na nossa vida de um modo geral? Relacionamento online também é tentativa e erro (e, assim como na vida, mais erro do que acerto). O segundo mito é que na internet só existem pessoas derrotadas, os famosos “losers”. Sim, claro que pode existir alguém tão tímido a ponto de não conseguir uma vida social fora do PC, mas tem muito mais gente que simplesmente acha o procedimento interessante, divertido e, principalmente, prático.

O QUE EU QUERO? Saiba exatamente o que você quer e deixe isso claro. Na internet podemos fornecer essa informação antes de qualquer outra. Afinal de contas, você se imagina falando para o bonitão ou bonitona que acabou de conhecer na boate: “nossa, eu realmente quero namorar agora”, ou ainda “se eu me der bem com você esta noite, gostaria de nunca mais vê-la(lo)”. Não dá.

O QUE O OUTRO QUER COMBINA COM O QUE EU QUERO? Se a outra pessoa já se aproxima sabendo o que você quer, não a deixe esperar outra coisa. As
pessoas na internet mentem tanto quanto na vida real e muitas não sabem o que querem – exatamente como na vida real. Se você quer algo sério e a pessoa te deixou de molho, fuja. Se você não quer namorar e a outra pessoa ignorou isso e parece estar cada vez mais na sua, fuja. Essa simples informação evita muita dor de cabeça.

PERFIL É CURRÍCULO. Ainda que você não esteja afim de algo mais sério, não recomendo salas de bate-papo, mas sim os sites de relacionamento e redes sociais - principalmente os primeiros. É certo que a maioria ali quer namoro, mas tudo é tentativa. Nesses sites você tem mais informação sobre a pessoa e pode usar outros parâmetros para avaliá-la. Por exemplo, já namorei pessoas que não escreviam bem, mas na internet o contato se dá, principalmente, por escrito. Se isso tem importância para você, leve em consideração – respeite suas exigências, mesmo para um encontro casual. Porém, mesmo sem erros de português, um perfil impecável contém outras dicas valiosas e que podem fazer você reprovar a pessoa.

CANDIDATOS REPROVADOS. Eu, particularmente, evitaria perfis com fotos ostensivas. Se um homem coloca uma foto ao lado de um carro importado, ele espera o quê da mulher que se corresponder com ele? Exatamente. Portanto, meninos, mesmo que a autoestima não esteja lá grandes coisas, sempre vale a pena tentar fisgar uma mulher que se interesse por você, não pelo carro (que geralmente é de algum primo). Vale para mulheres que postam fotos de biquíni. Também evitaria perfis deprimidos – pessoas que acham que só com outro alguém serão felizes e as que acabaram de terminar um relacionamento e obviamente ainda gostam da(o) ex (“quero voltar a sorrir”, "falta minha metade" são frases-padrão desses casos), entre outros. Compensa dizer que todo esse cuidado não é garantia de escapar de roubadas – poxa, tem gente
que fica anos com alguém ao vivo e em cores e ainda cai em roubadas, não seria diferente na rede. Mas dá para peneirar mais do que na balada, não é verdade?

TUDO O QUE VOCÊ DISSER É USADO CONTRA VOCÊ. Assim como em encontros “reais”, tudo está sendo analisado constantemente. Se o seu e-mail é delícia21bh@... você quer exatamente sexo casual, essa é a mensagem. Se você tem outras intenções, passou da hora de trocar de e-mail (o ideal é criar um descartável). O mesmo serve para quem você está conhecendo, sem exceções. Uma vez me aproximei de um rapaz que usava Gandalf no e-mail. Gandalf é o mago do filme Senhor dos Anéis e imaginei que uma pessoa que gosta desse tipo de cultura poderia dar certo comigo. Poderia ser também um jovem com sérias dificuldades de interação social. Tratava-se da primeira hipótese, ufa! Só o e-mail diz muita coisa.

Então você já selecionou alguns perfis e está pronta(o) para trocar MSN com essas pessoas. Vamos à segunda parte:

NA APROXIMAÇÃO

AI MEU DEUS, ELE(A) “LOGOU”! A janela do MSN pisca. Essa é a hora para você se certificar de alguns prejulgamentos feitos: a pessoa realmente é divertida? A pessoa que conversa com você e a que estava no perfil parecem a mesma? É normal que os inseguros peçam a outras pessoas para montar um perfil atrativo. É mais normal ainda que as pessoas super enalteçam suas qualidades. A conversa flui? Parece natural? Caso haja alguma contradição com o perfil, não tenha vergonha de confrontá-lo(a) e, claro, não deixe a netiqueta de lado. Se todas as respostas forem afirmativas, hora da segunda fase, que pode demorar até uns dias.

QUEM NÃO DEVE, NÃO TEME. Endereços, fotos diversas de rosto e de corpo, idade, altura, formação, perfis sociais, telefones – inclusive fixo – devem ser trocados após algum contato e certa confiança no outro. Se não tem telefone fixo, tem endereço, se não tem nem um nem outro, desconfie de falsa identidade ou pessoas comprometidas. Por mais que as feministas não gostem, mulher é sexo frágil dependendo do contexto SIM. De quantos estupros de homens, cometidos por mulheres, você já ouviu falar? Pois é, eu também não. Logo, se você é mulher, cobre. Se você é homem, entenda o receio das moças e forneça as informações.

E SE A PESSOA FOR UMA LOUCA? Sim, a mulher do “Pedro, dá meu chip” também é. Conhecer pela internet não exclui essa possibilidade e conhecer ao vivo também não. Para evitar ao máximo que a pessoa grite na porta da sua casa, é só ir por etapas, dar primeiro o celular, trocar umas palavrinhas e aí ir liberando as outras informações aos poucos. O que não dá é encontrar pessoalmente sem esses dados, inclusive para sua segurança.

A TESTEMUNHA. Já decidida(o) a encontrar, informe um amigo da sua decisão e passe as informações que você tem para essa pessoa. Diga também o horário e o local marcados – não é uma boa hora para deixar o momento decidir o destino. Ligue depois do encontro ou no dia seguinte para esse amigo, principalmente se você for mulher.

E O ENCONTRO? O encontro acontece como qualquer outro. Seria algo como o primeiro encontro de verdade depois da primeira “ficada”, com a diferença que você ainda não beijou. Outra diferença é que você tem uma pá de informações sobre a outra pessoa e isso pode ajudar a render um bom papo. Se não rolou a famosa “química”, dá para ser educada(o): uma boa saída é marcar um happy-hour. Assim você pode dizer que tem outro compromisso ou ainda esticar a noite caso tudo tenha saído melhor que a encomenda. Outra dica: marcar um lugar onde a conversa seja possível (nada de cinema ou boate) e, se houver interesse mútuo, sugerir outro lugar onde a “abordagem” seja mais fácil (aí sim, a boate). Se você adorou a outra pessoa e nada aconteceu, lembre-se que ela também tem direito de escolher - não fique se torturando imaginando motivos.

MAS EU VOU FICAR PAGANDO SITE? Apesar dos sites de relacionamento serem pagos, existem muitas formas de burlar o filtro dos sistemas e trocar contatos. “E-mail quente”, por exemplo, é Hotmail. A regrinha de ouro do cavalheirismo vale aqui também: geralmente meninos deixam o MSN no perfil e eu não recomendo essa tática para mulheres. Se você realmente quiser um namoro e quiser acesso a todos os recursos desses sites, acho que ainda acaba sendo mais barato do que sair uma noite após outra com esse objetivo.

ENCONTRO QUE É BOM, NADA. Mesmo que vários contatos por MSN não rendam mais que umas tecladas, você ganha pelo menos um passatempo divertido, motivos para rir (sai cada pérola...) e massagens no ego – totalmente de graça!

“NAMORO NÃO PASSA DE COBRANÇA DA SOCIEDADE”. Sei que foquei muito em namoros, mas acho que encontros casuais são mais fáceis de acontecer ao acaso, logo, recorri à internet quando queria namoro (e guardo excelentes recordações desses relacionamentos). Mas acredito que algumas informações passadas aqui são úteis também para flertes casuais.

DICAS FINAIS. Parece óbvio, mas não custa repetir. Camisinha SEMPRE. Não acredite em tudo o que a pessoa fala, mesmo já tendo se encontrado com ela algumas vezes. NUNCA envie dinheiro, por mais sincera que pareça a lorota. Nunca empreste dinheiro para alguém que você acabou de conhecer - ainda mais quando ela não forneceu todas aquelas informações. Não coloque a pessoa dentro da sua casa antes de ter informações e intimidade suficientes para isso e também não vá para a casa dela. Cuidado com o que você exibe na webcam ou fala pelo microfone: não mostre nada que você não gostaria de ver no Youtube. Use e abuse das redes sociais - conheço as opiniões de algumas pessoas do falecido Orkut mais do que as opiniões da minha própria família.

Para terminar, boa sorte e boa diversão!

5.03.2012

Não sei o que quero ser quando crescer. Mas já cresci.



Claro que fiz essa busca no Google. As exatas primeiras palavras. E entre tantos textos relacionados à escolha de carreira, dirigidos para colegiais, deparei-me com um menos cruel. Afinal, não posso ser o único peixe com sensação de estar fora d’água. Será que só na juventude você tem direito a dúvidas existenciais? Só a explosão hormonal explicaria a inquietude, a ansiedade?

Enfim, o texto falava dos motivos que levam alguém a perder-se na vida. Um deles, que o autor chamou de “canto da sereia”, acontece durante a crise da meia-idade, por causa de uma escolha errada de carreira - pelos motivos errados. Isso me deixou ainda mais perdida: sou uma balzaquiana com síndrome de Peter Pan ou uma quarentona precoce? Apesar dos protestos do meu ego, fico com o segundo. Não dá para classificar como acomodação quase dez anos de atividade no mercado para o qual me formei, a construção de um portfólio satisfatório e a manutenção da própria empresa por três anos, totalizando onze anos de trabalho sem férias (períodos entre empregos ou emendar um ou outro feriado não podem ser considerados férias em um mundo normal).

Então eis a situação: tudo o que eu queria ser quando crescer, tudo o que eu me preparei para ser – não quero mais. As pessoas mudam e existe esse risco. O problema é ter medo de correr outros riscos: procurar a saída da arapuca quando se cai nela. É tropeçar e descobrir que você tem um longo caminho para chegar a algum lugar – sem tempo para choramingar as feridas.

Todos dizem que só o fato de estar empregada (no meu caso, concursada – o que dificulta ainda mais soltar as amarras) já é motivo para agradecimento e eu concordo em partes. Tendo enfrentado alguns momentos de desemprego e dívidas, concordo que estar empregado e ter salário são coisas boas. Só que não é o suficiente. Olhar para o lado e ver que existem sim pessoas que acordam todos os dias com brilho nos olhos é a prova de que eu, você, qualquer um, pode mais. Basta querer. Mas querer o quê mesmo? Aí está o hiato. Tantas coisas fazem meus olhos brilharem que me pego pensando em ser Da Vinci: gênio multifuncional. Porém, não sou gênio e ainda não encontrei alguém que ofereça o cargo de “multifuncionalidade” (o “marido de aluguel” é um multifuncional interessante, mas não sei nada de manutenção de casa e “esposa de aluguel” não soaria bem). Sim, porque quem disse que decidir a vida aos 18 é difícil não teve que refazer a decisão aos 30. Grana conta.

O texto ao qual me referi tenta nortear os leitores dizendo para seguirem um objetivo, um sonho e estabelecerem metas para alcançá-lo. Dá como exemplo o sonho do Presidente Kennedy de ir à lua – o que levou a humanidade (mas não o próprio Presidente) ao nosso satélite natural. Eu quero ir à lua. Quero liberdade para ir e voltar, todos os dias, várias vezes ao dia. E recebendo o salário do Neil Armstrong, atualizado e corrigido.

10.03.2011

Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter

Minha memória nunca foi uma boa parceira. Portanto, essa lembrança carece de registros mais detalhados como, por exemplo, em que série eu estava ou em qual colégio estudava. Não me lembro nem do nome da professora. Mas daquela lição nunca me esqueci. Estava em uma aula de Português e estudávamos interpretação de textos. Amante da escrita e da comunicação que sempre fui, adorava destrinchar os trechos dúbios, os cacófatos, as concordâncias verbo-nominais. Porém, nunca entendi a interpretação de textos aplicada da forma mais comum nas escolas: salvo os textos descritivos dos jornais e revistas, torna-se pedante querer avaliar, de forma simplista, a resposta de um aluno sobre a interpretação de uma poesia. Um dicionário online traz como definição de poesia “a arte de escrever versos”. Se é uma arte, não merece ser encarcerada em apenas uma interpretação e, se é assim considerada, não pode ter uma reação avaliada como "certa ou errada". Teriam os observadores de Guernica os mesmos sentimentos despertados? Onde está a arte se isso acontece? Mas acalmemos os ânimos. É pela diversidade das reações que a arte, inclusive a poesia, tem um lugar muito cativo na humanidade desde os nossos primeiros passos.

Então, voltando à aula e ao livro - que tentava ser moderninho, tínhamos uma música para interpretar. “Somos quem podemos ser”, dos Engenheiros do Hawaii. Vou colocar a letra inteira aqui, porque tão errado quanto cobrar uma única interpretação de uma poesia é apresentar somente uma parte dela:


SOMOS QUEM PODEMOS SER
Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção
E tudo ficou tão claro
Um intervalo na escuridão
Uma estrela de brilho raro
Um disparo para um coração
A vida imita o vídeo
Garotos inventam um novo inglês
Vivendo num país sedento
Um momento de embriaguez
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter
Um dia me disseram
Quem eram os donos da situação
Sem querer eles me deram
As chaves que abrem essa prisão
E tudo ficou tão claro
O que era raro ficou comum
Como um dia depois do outro
Como um dia, um dia comum
A vida imita o vídeo
Garotos inventam um novo inglês
Vivendo num país sedento
Um momento de embriaguez
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter
Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção
Quem ocupa o trono tem culpa
Quem oculta o crime também
Quem duvida da vida tem culpa
Quem evita a dúvida também tem
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter

Depois, em meio a outras, vinha a derradeira pergunta: “De acordo com o texto, quem tem culpa?”. Li a música inteira novamente. Li a parte da culpa mais uma vez. Pensei e escrevi que todos nós temos culpa. Isso porque, no meu entendimento pré-adolescente, começando a querer decifrar a complexidade dessa letra, os governantes ocupavam o trono e o resto, ou seja, a população em geral, ocultava o crime, duvidava da vida ou ainda evitava a dúvida. Levante a mão quem nunca fez uma das três coisas. Quem já foi conivente com algo errado - principalmente nas eleições, quem já teve medo do futuro, quem já deixou de se perguntar se era realmente feliz, se estava realmente satisfeito? “Todos nós”, escrevi. E ganhei um zero.

Sem compreender a nota, fui conversar com a professora. Ela disse sem titubear que quem tinha culpa era “quem ocupa o trono, quem oculta o crime, quem duvida da vida e quem evita a dúvida”. Perguntei ainda se isso não refletia todo e qualquer ser humano e ela disse que não. Para terminar a discussão, marcou a parte do texto correspondente à resposta em vermelho.

Essa decepção não foi suficiente para ceifar meu amor pela comunicação. Cresci com a pulga atrás da orelha e tenho orgulho em dizer que nunca concordei com a tal professora. Lendo a música hoje, continuo com a convicção de que todos nós temos culpa. Coincidentemente, procurando pela internet, achei uma outra interpretação de texto, da mesma canção, dizendo que a culpa pertence aos aparelhos ideológicos do Estado, que convencem a população de que está tudo bem. Porém, na minha opinião, ao acreditarmos em quem quer que seja sem questionar, evitamos a dúvida. E adquirimos a culpa.

Professora, não cobre interpretação de poesia em sala de aula, a não ser que você tenha tempo de estudar cada resposta com carinho e ver se elas são plausíveis, mesmo não sendo aquela que o livro dos professores indica. A magia da poesia, o sabor de discuti-la tem raízes fortes na Filosofia que, com muito mais modéstia, reconhece não ser possível encerrar uma discussão dessas com uma resposta final. Poesia é feita de coração para coração e a resposta que você desejava deveria estar em uma aula de beabá, para certificar que os alunos aprenderam a ler - não em uma aula de interpretação de textos do curso médio, que poderia ser infinitamente mais rica, mais informativa e mais formadora - inclusive para a senhora.

Escola: um lugar que deveria incentivar o diálogo e a curiosidade.

8.20.2011

Um brinde às verdadeiras amizades

Ontem, mais uma vez, precisei dos seus conselhos. Lamentei profundamente que fossem quatro horas da manhã e que a necessidade nem fosse tão urgente assim. Dava para esperar amanhecer. Mas ontem, mais uma vez, precisei de você.

Você publicou na internet uma frase, entre aspas, que fala sobre a amizade verdadeira, aquela que perdura com o tempo, que reconhece as limitações da alma, as imprevisibilidades da vida. E que, mesmo assim, ama. Mesmo que ame apenas o que um dia foi.

Comecei a responder a publicação, mas ficou tão gigante que achei que merecia um texto, apesar de você merecer mais que isso. Um brinde às verdadeiras amizades.

"Dizem que amigos verdadeiros podem passar longos períodos sem se falar e jamais questionar essa amizade. Quando eles se encontram, independente do tempo e da distância, parecem que se viram ontem, e nunca guardam mágoas ou rancor. Entendem que a vida é corrida, mas que você os amará PARA SEMPRE.” Li essa frase ontem e tive certeza de que ela nos descrevia.

Existem amizades que ficam encerradas em um tempo remoto, mas que ainda são verdadeiras. Mesmo que não existam mais no presente, são profundamente respeitadas, como se ainda fossem tão reais quanto noutro momento. O primeiro passo para aceitar as adversidades é entender que muitas vezes as coisas fogem ao nosso controle. Um dia a dia corrido, um namorado que distrai, filhos que tomam nossas rédeas, uma mudança de casa, a constante transformação das personalidades e dos gostos: tudo isso faz parte do crescer. E a gente não pilota a vida, por mais que assim pareça.

Porém, se a amizade tem uma base forte, livre de ciúme e construída sobre o respeito mútuo pela divergência de opiniões que a vida sempre nos apresenta, fica infinitamente mais fácil recuperar um passado congelado. Nem sempre há a necessidade dessa reconstrução: muitas vezes essas amizades realmente pertencem ao passado. Mas isso também não deve ser alvo de julgamentos e só quem sabe qual amizade vai ficar na lembrança e qual vai renascer é o futuro. O importante é abrir espaço e fertilizar o solo para, quando essa chance aparecer, ter a oportunidade de florescer mais uma vez.

(True Friendship, by Kimcats)


Nota:
Eu (e gosto de pensar que ela também) tive a sorte de conviver intensamente alguns poucos anos da minha infância com a Lê. Mudei-me para o estado do Rio com 8 anos, e minha mãe sempre me levava em sua casa nas férias. Não era mais aquela amizade diária e eu realmente a conhecia pouco então, mas certamente tinha amor. Voltei do Rio aos 12 anos, seguimos caminhos diferentes por um (curto) tempo. Ainda não tinha amizade diária, mas sabíamos que estávamos por ali, caso uma ou outra precisasse. Rapidinho, porém, aprendemos a lição da ausência de perenidade das coisas, nos reconhecemos e reconstruímos nosso dia a dia em comum. A amizade tem falhas, tem seus pontos altíssimos e tem os momentos que são morninhos, assim como a vida geralmente é. Mas os sentimentos de confiança, amor e consideração, que perduram por mais de 25 anos, fazem com que eu tenha certeza: sempre foi amizade e sempre será, mesmo que um dia o contato diário se perca novamente (não!). Não acontece com todo mundo, mas acontece. Lê, fico feliz que tenha acontecido conosco. Um grande beijo!

8.05.2011

Até que a morte nos junte


Num divórcio dá para dividir muitas coisas, mas algumas ficam realmente difíceis. Não dá para dividir os filhos à la Salomão, dividir uma coleção, a cama e muito menos dividir o túmulo, Deus me livre! Por isso, Lúcio Mauro se viu com a maior dor de cabeça quando ele e sua ex-mulher já tinham dividido quase tudo, mas ainda arriscavam dividir o mesmo leito de morte.

Essa história não começa aqui, mas sim quando Lúcio Mauro, por motivos não muito nobres, ainda tinha paciência com a mulher, e a mulher fingia ter paciência com ele. Por amor, sabe? Naquele fatídico dia em que a mãe da Regininha, a mulher do Lúcio Mauro, morreu, os dois eram quase pombinhos e os meses de lamentação que se sucederam, ele sempre concordando com “Mamãe era uma mulher nota mil” e outras frases afins, foram suportados com um até certo prazer em ser útil. Também não era o momento para discordar da mulher, que afirmava categoricamente que não queria dar trabalho aos filhos quando morresse. “Ainda bem que eu estava aqui, senão...” era outra frase constantemente ouvida por Lúcio Mauro. O “senão” era que a mãe da Regininha seria enterrada como indigente. Todos sabemos que na vida tudo é caro, inclusive morrer. Foi pensando em não ser enterrada como indigente, em não depender dos filhos para o enterro - duas possibilidades que provavelmente dariam o mesmo resultado - e na possível morte repentina de ambos os progenitores, que Regininha sugeriu, ou melhor, exigiu a compra imediata de um túmulo familiar para ela e o marido. Ser enterrado ao lado da sogra era demais para Lúcio Mauro, mas não tinha argumentos para não querer ao lado da mulher e por isso escolheu, ou melhor, consentiu um jazigo duplo.

A notícia foi dada em casa, durante o jantar, para os filhos: “Agora vocês não precisam se preocupar mais”, anunciou, orgulhosa, a Regininha. Ao digerirem a novidade, tiveram a reação comum aos adolescentes: entreolharam-se, deram de ombros e continuaram as garfadas. Lúcio Mauro, com a boca cheia, sorriu um sorriso de aprovação para a mulher. Depois da refeição, pelo telefone, Regininha contou às amigas, às vizinhas, às primas distantes - ninguém se preocuparia com ela. Regininha não sabia que o tempo verbal mais adequado aqui era o imperfeito do indicativo.

O tempo foi passando e a novidade deu lugar ao marasmo, o luto deu lugar a problemas de menor ordem e, finalmente, o amor deu lugar à mera tolerância. A sugestão veio dos próprios filhos e o divórcio foi amigável até descobrirem que vender um jazigo duplo não era tão fácil quanto o corretor fez parecer. Devolver não era possível. Clientes de cemitério não reclamam e ninguém sabe o protocolo nesses casos. Lúcio Mauro tinha certeza de que empurraria para um primo cinquentão, gótico, todo vidrado em morte. Esqueceu-se porém que o primo não acreditava no amor desde a primeira e última desilusão com uma namoradinha, aos 16. “Se ainda fosse individual...” choramingava ele, o primo. Todos os amigos, dos em comum aos incomuns, são testemunhas da grande cilada que foi a compra e ninguém quer ficar com a batata quente, mesmo a preço para colega. Os garotos também não querem ser enterrados juntos, nem lá e nem em lugar algum: são doadores de órgãos declarados e querem ser cremados. “Coisa de mulherzinha, ficar juntinho”, esnoba o mais novo. Os advogados do divórcio ficaram de saco tão cheio que chegaram a cogitar cada um comprar metade do elefante branco só para nunca mais verem seus respectivos clientes. A ideia não vingou: a mulher de um deles, o recém-casado, quer férias em um cinco estrelas lá em Paris no mês que vem, com direito a roupas e jóias novas.

E assim não termina a história de Regininha e Lúcio Mauro, que perdura até hoje junto com as brigas. Ele a acusando pela brilhante ideia, ela lembrando que ele nunca conseguiu resolver um problema sequer da família. Depois de anos de tentativas frustradas, pensam em desistir da venda, anunciada todo fim de semana no jornal mais popular da cidade, gravando no bendito túmulo: “Aqui jaz nossa paz”.

7.30.2011

Contos da Vovó - II

Então senta que lá vem a história... =)


Como era bem comum naquela época, os irmãos se encontravam pelo mato. Estavam atrás de gabiroba quando se depararam com um ser diferente. Espreitando por detrás de alguns arbustos, estava o tinhoso! Assustadas com a ousadia do cramunhão, as crianças correram para casa e contaram para o pai, aos prantos, que o diabo havia dado as caras, com chifres e tudo, para elas naquela tarde. Meu bisavô, achando muita graça em toda a situação, pediu aos filhos para descreverem o coisa-ruim tal como eles o haviam visto. Então descreveram um cachorro, porém mais alto e magro, com chifres que pareciam galhos ramificados. Meu bisavô ria ainda mais e as crianças não entendiam como ele podia fazer tão pouco do seu desespero. Assim como os pequenos explicaram, em meio ao choro, como o diabo havia aparecido para eles, meu bisavô explicou, em meio a gargalhadas de tirar o fôlego, que eles haviam visto um belo exemplar de veado galheiro.

Perdeu o início dessa história? Então confira aqui:

7.22.2011

Contos da Vovó - I

Anita Malagoli Jardim, nascida em Dores do Indaiá, em 1921. Perdeu o marido, Geraldo Jardim, com 64 anos. Eu tinha seis. Infelizmente, não pude conviver mais tempo com ele, mas algumas de suas histórias e também do meu bisavô, Alfredo Malagoli, foram eternizadas pelos contos de minha avó. Suas memórias, contadas e recontadas, são a minha história também. E aqui divido as mais interessantes. Sem sombra de dúvida são causos que merecem ser compartilhados, passados em um tempo em que o bairro Gutierrez era nada mais que mato e os meninos brincavam na Avenida Francisco Sá - um belo e límpido riacho então. Uma Belo Horizonte que eu não conheci mas que, graças à minha avó, é quase tão familiar para mim quanto o sorriso sapeca que ela solta quando conta as peraltices que aprontou. Uma homenagem a ela e aos meus antepassados, às minhas raízes.



Contam em Dores do Indaiá que certa vez dois amigos iam descendo a estrada a caminho de um baile. Como eram músicos, cada um levava seu instrumento e iam papeando, já bem calibrados para a diversão. Ao passarem em frente ao cemitério, felizes e sociáveis, resolveram convidar os mortos para a festa. E assim fizeram, gritando para as tumbas que, quem quisesse, seguisse-os até a confraternização, que seria boa demais. Não esperavam, porém, que um sujeito, ainda mais bêbado que os dois juntos, dormia aos portões do cemitério, que eram cobertos para abrigar os caixões trazidos madrugada afora. Ao escutar o convite irresistível, levantou-se com alguma dificuldade e disse: “Esperem, que vou com vocês!”. Ao receberem a resposta inesperada, os amigos correram mais que as pernas podiam e chegaram ao baile sem fôlego e sem instrumentos, gritando que os mortos haviam aceitado o convite e estavam a caminho da festa.